O Rio de Janeiro continua lindo…

January 12, 2009 by quixotesemrumo

             O Rio de Janeiro continua lindo… Algumas cidades são belas pelo esforço do homen. O Rio de Janeiro dispensa tal ajuda. Sua beleza é vista de qualquer e em todos os pontos. Apesar do esforço nosso em derrubar matas, escavar túneis, demolir morros e levantar prédios, o Rio se sustenta. Sua geografia peculiar e única encanta quem chega. Esteja nas praias, na lagoa ou nos morros, não é preciso girar mais de 360 graus para se deparar com alguma distração visual no mínimo interessante. Posso apenas sonhar a sensação dos navegantes que aqui chegaram há mais de 500 anos, quando araras eram abundantes e havia pra lá de 20 lagoas…

            Só agora, depois de vinte e poucos anos vividos, é que pude entender muito do que havia aprendido nos livros e escutado nas músicas. Entender porque saíram do Rio as canções que saíram. Entender porque se  inspiraram no Rio aqueles que se inspiraram. E entender porque surgiram no Rio as idéias que surgiram.

            O carioca foi mais um exemplo de que não se pode montar conceitos antecipadamente. Gente relaxada, tranquila e sem a tensão e frieza tão presentes abaixo da Bahia. O próprio linguagar “carioquês”, que em muitos momentos disse desgostar, soa diferente lá. Acho que quando via (ouvia) um carioca fora do Rio, tinha a tendência a achar que o sotaque estava sendo forçado e coisa tal… Grande besteira!! O mesmo modo de falar é sustentado durante os instantes de mais pura descontração. Ilustre constatação: “aqui todos falam carioca”.

            Obviamente nem tudo é flor. Em qualquer cidade com mais de 2 milhões de habitantes (ou menos!) a pobreza e miséria são inevitáveis. O Rio, com seus pra lá de 9 milhões não seria diferente. As ruas são casa de muitos e diferente de outras cidades onde se vê pessoas isoladas cobertas com papelão ou jornal, lá famílias inteiras fazem das calçadas sua moradia. Nos morros a molecada joga bola descalço e com a trave desenhada no muro. A poucos metros, traficantes com suas pistolas e fuzis, observam os ares em busca de sinalizações, seja por pipas ou por fogos. Ao sinal da menor anormalidade os “clicks” são ouvidos e armas apontadas. Isso, contudo, é no morro. A sensação de andar pelas ruas “comuns”, acredite ou não, é bem menos hostil do que as andanças por uma Fortaleza ou Recife.

            Bem, não posso concluir sem falar da Lapa, local onde “ninhei” por mais tempo. Lugar de bares e de uma boemia diversificada. Boemia destacada, boemia escondida; boemia em mesas, boemia em balcões; boemia de aparência e boemia de idéias. Lugar de fronteira com as ladeiras de Santa Tereza. Lugar perto dos pertos e perto dos longes. Enfim, lugar onde se sai inocentemente em uma segunda à noite e retorna às seis da manhã, após diálogos com celebres comuns, com a constatação de que a poesia não é para quem ler, mas para quem escreve.

Dedico esse post ao meu irmão por opção, Felipe Bottona,  com quem passei algumas das experiências mais inesquecíveis dos meus vinte e poucos anos de vida. Obrigado pelo acolhimento e tudo mais.

MEdo da Escolha

October 14, 2008 by quixotesemrumo

Mais do que prego em dia de chuva, trovoada no mar, ligar tomada com pé molhado, andar com a janela aberta, se aventurar por mata desconhecida, primeiro dia na escola nova, botar a mão na caixa preta, tirar as rodinhas pela primeira vez, cozinhar na panela-de-pressão, comer manga com leite, cachorro solto e outras tantas, acredito ser o medo de ter escolha um dos mais recorrentes e difíceis de combater.

A idéia de ter controle sob as próprias decisões, em si, já é motivo de tremer as pernas. Para superar isso acaba-se criando as várias “entidades controladoras”. Deusas e deuses que incrivelmente coordenam ações e reações de tantos bilhões de humanos, além dos trozengualhões de animais, plantas, fungos, bactérias e afins que existem por ai. Sem a idéia errada, claro. Particularmente acredito em alguns, simpatizo com tantos e até concordo com outros. Mas, sem dúvida, eles e elas dão uma boa amenizada nesse medo. Afinal de contas se aconteceu é porque Ele quis, dizem por ai. Penso que se, de fato, existem, foram extremamente caridosos e louváveis ao nos dotar da capacidade de raciocínio, capacidade de auto-reflexão. Que forma melhor de agradecer se não dando utilidade ao presente? (Vai dizer que não é chato dar um presente bem pensado e investido de carinho para alguém e depois de dois anos ver-lo na casa do amigo enconstado na parede com teias já antigas?)
Outra maneira de evitar ter que enfrentar esse “monstro” do “poder de escolha” é dizendo o famoso: é porque eu não posso!! Por que não pode? Quem disse? Obviamente essa capacidade de poder escolher aumenta junto com a hierarquia financeira de cada um. Apesar de que, ainda assim, uma pessoa que mora nas margens de um rio inundável, com esgoto na porta de casa(cujo teto nada mais é do que o viaduto que conecta a BR com a avenida principal), ratos e baratas como vizinhos, sem emprego e ainda passa fome, sempre pode escolher ir passar fome no campo, onde a água é mais limpa, o ar mais fresco, os pássaros ainda cantam (e até comem as baratas) e quem sabe at possa encontrar um pedacinho de terra para trabalhar e plantar o que consome (mais uma vez deixando bem claro que essa é uma equaçao bem mais complicada e envolve outro fatores). Mas enfim… O fato é que as escolhas estão ai para serem feitas e mesmo quando dizemos que não podemos escolher algo é porque já escolhemos um outro algo. Quando se dizem que é necessário trabalhar mais em detrimento do tempo livre para poder sustentar os filhos, não lhes passa pela cabeça que poderia-se fazer um “sustentar” bem menos despendioso (e muitas vezes mais saudavel) do que o que se faz. Ou seja, não é que não se pode ter mais tempo livre por causa da necessidade de sustento. Na verdade o que ocorre é a opção por um estilo de vida custoso. O mesmo se aplica a outras situações. O indivíduo que “workaholic” pode jogar seus papéis para o alto e descer para a praia, mas escolhe a possibilidade de “glória” resultante do seu trabalho exaustivo. O estudante pode fazer o mesmo, mas escolhe o estresse materlante pelos mesmos motivos, isto é, a maior valorização do prestígio social em detrimento do prazer pessoal.A não ser que o prazer pessoal venha dessa atividade, mas nesse caso não haveria porque querer escolher outra coisa uma vez que já está realizada pessoalmente.  

Sem maiores demoras, a questão é que negamos a autonomia das escolhas para nos proteger. Proteger-nos do medo dessa autonomia e do medo de enfrentar o mundo. Devemos fazer as perguntas: “quero escolher algo diferente??” e em seguida “que escolhas que faço impedem o “fazimento” das escolhas que quero?”. De repente seria bacana buscar escolhas que resultassem em alegria, tranquilidade e bem estar. Escolhas que permitam relaxar para o mundo para que ele possa relaxar para vocÊ. Afinal de contas dizem que a teoria da gravidade veio de uma soneca sob o pé-de-maçã.

O Poder da Privação

August 24, 2008 by quixotesemrumo

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O local não lembro ao certo. O que lembro é que lá estava, eu e o Comparsa Miguel, jogando conversa fora enquanto o sol baixava lentamente por detrás dos florestados vulcões Nica. Naquela tarde havíamos já conversado sobre temas variados, estando naquele momento a debater a questão do aprendizado.

  • Já escutou a estória da serpente? – perguntou-me, como se a pergunta fosse menos abrangente do que específica.

  • La verdad és que no! – respondi interessado em saber as palavras do experiente, ao que ele prosseguiu:

  • Há muitos e muitos anos, antes das fogueiras intencionais e dos grupos nômades, havia um lagarto que habitava o interior entocado das grandes florestas. As matas eram repletas de toda qualidade de vida. Haviam desde insetos “quase-nada” até grandes dragões. As árvores, além de variadas, eram imensas e podiam servir de moradia para uma ou duas famílias (se existentes naqueles tempo); suas folhas, frutos e raízes forneciam alimentos suficiente para os animais que a eles tinham acesso… Mas, voltando ao lagarto. O lagarto vivia no topo das árvores, dividindo seus múltiplos frutos com insetos e aves variadas. No solo viviam, além dos bicho míudo, aves muito atrapalhadas para voar e pequenos ratos que, quando não possuíam a habilidade de cavar, serviam-se dos resto vindos do topo da floresta. O lagarto era muito preguiçoso e, diferente dos outros seres que constantemente buscam aprender novas habilidades e conhecer novas fontes de alimento, passava o dia a passear pelos galhos, capturando seus já conhecidos frutos com suas patas dianteiras. Ninguém jamais acreditaria que o lagarto fosse capaz de aprender algo até que o inesperado aconteceu. Seu desinteresse no aprendizado o levou a comer um fruto tóxico que imediatamente paralisou seus membros. A primeira conseqüência foi sua queda to topo para o solo. Com o passar do tempo seus membros foram atrofiando, sendo ele sustentado pelas reservas existentes em tais membros. Ao perceber que não havia retorno à sua condição inicial, o lagarto começou a tentar rastejar em direção aos frutos caídos. Infelizmente, sua agilidade não era das melhores, chegando sempre atrasado em relação aos outros oportunistas. A inutilização de seus membros tampouco tornava possível a escavação em busca de raízes. À medida em que seus membros iam atrofiando e suas reservas se reduzindo o lagarto começou a tentar rastejar mais e mais, ganhando agilidade com cada pôr-do-sol. Com o tempo o lagarto foi se tornando tão ágil que já podia antecipar sua chegada aos frutos caídos. Vendo que a energia dos frutos já não era suficiente para sustentar seus gastos, o lagarto “sem patas” aprendeu a preparar misturas tóxicas em sua boca, passando a se alimentar de outros animais, estes fornecendo mais energia que os frutos. Deu-se então a origem da primeira serpente.

Desse estória puder retirar algo: o poder da privação! Foi apenas após ser privado de suas patas que o lagarto finalmente foi capaz de aprender novas habilidades. Interessantemente, o mesmo parece ocorrer com nós seres humanos. Logo lembrei do momento em que consegui resolver minha primeira equação de segundo grau sem o auxílio de professor, pai ou amigo. Naquele momento realmente senti que havia APRENDIDO o então objeto de foco.

Mais interessante ainda é o , digamos, modelo de aprendizagem que as situações de privação podem fornecer. Obviamente o aprendizado não requer essa “ausência de algo”para ocorrer, não sendo possível, nesse caso, sua condenação. Mas são, de qualquer maneria, diferentes. Enquanto um vem de uma teoria “pré-prática” o outro é o resultado de vivências vividas (sim, é redundante…mas não posso gostar?). Se, por um lado, um desses aprendizados é transmissão “quase eterna” dos sentimentos e palavras de quem viveu algo (ou não!), o outro é obtido a partir de uma mistura individual e única de hormônios e neuro-transmissores específicos que marca, sem dúvidas, mais que qualquer experiência de segundo ou terceiro grau. Mas isso é prática! E as privações? Quem nos colocaria a pensar ou agir se não elas? Por que, na verdade (minha!), qualquer atitude (física ou psíquica) não seria mais do que a busca de alternativas para superar os obstáculos impostos pelas “ausências”. Para superar a privação de movimento, aprendermos a andar; para superar a de comunicar, aprendemos a falar, e depois, dependendo das privações individuais, a ler e escrever (seja em letras, símbolos ou desenhos); para superar a falta de poder, aprendemos a nos reunir e por aí vai. No mais, não seria após perder um grande amor que aprendemos os significados desta pequena palavra? Exemplos não faltariam para completar mais algumas páginas (aprender a fazer um arroz na falta de um “cozinheiro”; aprender a trabalhar na falta de financiamento “superior”; aprender a lavar roupa na falta de uma máquina; aprender a racionar na falta de estoque; aprender a pegar ônibus na falta de carro; aprender a dormir no chão na falta de cama; aprender a decorar na falta de mapas; aprender capinar na falta de servo; aprender a pescar e subir em árvore na falta de mercado; aprender a relaxar na falta de compromisso; aprender a viver sem geladeira na falta desta e aprender a pensar na falta de respostas!) mas creio que 6 linhas são o bastante para que o próprio raciocínio de quem esteja lendo possa dar continuidade aos exemplos.

Talvez tenha esse sido o maior Mestre com que me deparei durante as idas e vindas da vida. Pensando melhor diria que isso COM CERTEZA. A falta de casa, transporte e alimento ensinado um novo modo de encarar essas três necessidades a priori básicas. A falta de comunicação ensinando a aprender um novo idioma e até a usar desenhos! A falta de companhia ensinado a perder a timidez. E, quem sabe o mais importante, a falta de certeza ensinado a aproveitar o momento.

Vivência no sul

May 10, 2008 by quixotesemrumo

em breve…

De volta ao Brasil

November 29, 2007 by quixotesemrumo

A poucos dias de retornar à suposta pátria “oficial”, sou tomado por uma série de revoluções corporais de ordem físicas e psicológicas. As palpitações aumentam e cada gota de suor parece trabalhar com sua mais alta intensidade. Com os sistemas gástrico e imunológico em baixa, temos como resultado comida indigesta e dores imaginárias (ou não).

Com pouco mais de 4 meses de viagem me alegro com a consciência de que igual tempo não poderia ter sido melhor aproveitado. Claro, o tempo foi pouco e muitos foram os lugares que ficarão para a “próxima vez”. Por outro lado, poderia ter viajado durante 6 meses, 1 ano, 2 anos ou 3 anos e mesmo assim o campo “próxima vez” estaria cheio.

Ao longo desse pouco tempo me foi gratificante a oportunidade de viver e fazer várias coisas nunca antes sonhadas e muitas cuja vontade de realizar vinha pulsando por dentro há muito tempo. Navegar pelo Amazonas, percorrer a savana venezuelana e relaxar nas praias de uma Colômbia encantadora foram os primeiros passos de viajante. Em seguida iniciar um trajeto de bicicleta no Panamá, primeiro país da america central. Em seguida pude surfar as ondas de uma Costa Rica repleta de natureza, conhecer as mentes politizadas de uma Nicarágua sofrida, mergulhar nas águas caribenhas de uma Honduras esquecida e passar pelas quatro pontas de uma Guatemala mágica. Em seguida, após a triste despedida com Felipe, pude assimilar os pensamentos enquanto atravessava o belo, mas hostil, Andes do Equador, crescer com a bondade do povo peruano, balançar sobre os trilhos enquanto atravessava o planalto andino boliviano, sentar com uma linda Dulcinéia nos parques da Argentina e por fim caminhar nas ruas tranquilas de um Uruguay sensato e cheio de mate.

Durante uma boa parte desse trajeto tive o bom destino de compartilhar as aventuras e desventuras com um louco de nome Felipe Bottona. O que havia saído de Fortaleza como dois amigos com interesses em comum se transformou em uma eterna irmandade selada por cada quilômetro de carretera, cada gota de suor e cada catavento enfrentado. Juntos pudemos materializar um sonho de conhecer o mundo além do asilo cotidiano em que vivemos. Com um apoio mútuo atravessamos fronteiras, encaramos caminhadas não imaginárias, cruzamos toda uma América Central de bicicleta e fomos superando um dia de cada vez. Ao lado do Rio Karuay, nas praias tranquilas da Costa Rica, nas ruas de La Fortuna ou na beira do lago Nicarágua, ali estávamos. Com a fiel e resistente barraca tínhamos sempre as moradias mais privilegiadas que o dinheiro não pode pagar.

Ao me atirar no mundo pude viver experiências das mais variadas possíveis. Com o passar de cada dia o teatro da vida foi projetando diferentes cenários e situações. Dentre essas, tive a chance de ver um pouco de como é a vida do outro lado da janela, na outra superfície da ponte e do outro lado da cerca. Se em alguns momentos estava na casa de amigos e tinha tudo, em outros estava nas ruas da capital sem um tostão no bolso (logo após o infeliz incidente).

Agora, voltando ao Brasil, reflito sobre os motivos que me levaram a iniciar a caminhada, nas tensões e medos vividos. Vejo a pergunta do Pablo que respondo: Não meu amigo, não é preciso ter nada de mais. E se tens como ganhar um pouco de grana do dia-a-dia, podes sair e sem nada. Assim fazem muitos loucos por aí. Saem de casa com seu filho, cachorro e um par de roupa. Imagino que esses são os loucos sãos. São os loucos que decidem sair do asilo. E é preciso somente vontade. Vemos animais presos em zoológicos, por tras de grades, e sentimos pena. Em seguida optamos por viver como eles, enclausurados com comida e abrigo na palma da mão. Infelizmente eles nao têm escolha, mas nos temos.

Montevideo, Uruguay

Lucas Bezerra

Uruguay inesperado…

November 26, 2007 by quixotesemrumo

Bem, argentinos, me desculpem. Fato é que existe um país bem pequeno e menos conhecido logo ao lado chamado Uruguay. Em termos de diversidade ecologica admito que deixa bastante a desejar. Fazer o quê? Um país altamente dependente da pecuária e com pouco espaço. O resultado obvio é o desflorestamento. De qualquer maneira, me contento com o brilho da lua cheia sobre os muitos pastos.

Por outro lado, o clima humano é agradavel e as pessoas têm apresentado uma tendência a apresentar um bom humor pouco comum nas terras do sul. Inclusive, logo ao atravessar o Rio da Plata a mudança ja pode ser detectada. E digo mais: esse clima mais suave das pessoas nao é exclusividade do interior. Ainda na capital, Montevideo, isso pode ser percebido. Outra, mais do que em qualquer outro lugar, onde o costume do clássico chá mate gaucho predomina, sendo praticamente impossivel caminhar um quadra sem ver alguem com sua garrafa termica embaixo do braço e o chimarrao na mao.

Enquanto ando, acompanhado da mais bela companhia, pelas ruas de Montevideo, vou me dando conta do quao interessante acho a cidade. Uma capital agradavel, aconchegante. Nao tao miseravel quanto La Paz, tampouco glamourosa como Buenos Aires. Nao tao caótica quanto Caracas e com uma tranquilidade que chega a lembrar San Jose. Enfim, uma capital única no seu modo de ser. Me agrada.

Por aqui o bom senso anda reinando e as pessoas apresentam uma mentalidade que aos poucos foge dos velhos preconceitos infundamentados e dao lugar ao sensato. Sexta passada, quando chegamos, foi dia nacional do porro (baseado). O Uruguay anda (e nao lhe falta muito) em direçao ao processo de legalizaçao da “maldita erva”. Nesse processo a policia deixa de molestar os usuarios e é, inclusive, querida por grande parte da populaçao.

 Imagino que tenha lá seus casos de corrupçao e tudo mais, mas poucos sao os lugares onde pode-se ver as pessoas elogiando esses defensores da segurança pública. Espero que os país maiores tenham a humildade de ver algo dando certo e sigam o exemplo.

Longe da movimentaçao da capital está a bela ( e fria) praia Punta del Diablo. Poucas horas de distancia da fronteira com o Brasil, essa praia oferece boas cabanas para dormir, algumas ondas para surfar, uma vegetaçao praieira bem similar como a encontrada em partes de Floripa e um bom por-do-sol as 8:00 da noite.

Sim, o Uruguay era um país que antes eu via mais como uma barreira a atravessar antes de chegar ao Brasil. Admito o engano. Inclusive recomendo para qualquer pessoa que queira viajar pela américa do sul mas que nao queira enfrentar a pobreza “hard-core” de paises como Bolivia e Peru. Nao sei. Os lugares estao ai para serem conhecidos. Apenas deixo dito que o bom ar daqui me surpreendeu de forma positiva.

Montevideo, Uruguay

Lucas Bezerra

Buena onda en Buenos Aires

November 18, 2007 by quixotesemrumo

Agora sim, tudo mudou. Tranquilo, nos braços de uma Dulcineia tao esperada permito-me deixar a mente e o corpo sob os cuidados de uma protetora.

Há uma semana havia saído de Salta para Tucuman para a partir daí traçar os novos rumos. A angústia que, naquele momento, passou a me fazer companhia nao permitia tomar decisoes concretas ou pelo menos refletir sobre quais decisoes tomar. Entre várias possibilidades distintas de me trasportar de Tucuman à Buenos Aires acabo optando pela mais barata, ou seja, ir à pequena cidade de Termas do Rio Hondo, acampar alguns dias e de aí seguir para B. Aires. Tomo o colectivo e desço em Termas. Infelizmente os campings da regiao nao estavam apresentando valores compatíveis com os de camping. Me direciono para a regiao do terminal em busca de alguma hospedajem ou pensionato mais barato, onde no caminho conheço Andres, um malabarista argentino. Sentado em uma parede acerca de um semáforo enquanto fazia pulseiras, Andres me conta sobre seu intuito de chegar ao México fazendo artesanato e malabares. Me alegro com a loucura (ou coragem). En seguida conheço Silvio, vendedor de panchos (cachorro-quente) que todos os anos vai a Termas trabalhar durante a temporada. Após boas trocas de idéias ambos me encoragam a viajar para Santiago del Estero afim de tentar vender umas bolsas que trago e passar o chapéu enquanto toco um ou dois temas na viola. Na loucura do momento concordo e me mando para a praça da cidade seguinte onde, infelizmente, meu chapéu termina a noite vazio. Volto para Termas em busca de um possível abrigo com os novos amigos e quem sabe algumas aulas de artesania. Acabo aprendendo a limpar para-brisa no sinal e durante os três dias seguintes vou ganhando minhas moedas, centavos em centavos. Acho que agora posso entender, mesmo que minimamente, a vida do outro lado da janela. Enfim, já que estamos para viver, que vivamos de tudo. Me despeço dos amigos e sigo para o encontro com a moça.

E que encontro. Chego ao aeroporto pouco antes da nave baixar ao pátio. Vou terminando os poucos pedaços de unha enquanto ela nao aparece. Finalmente, já com a guarda baixa, vem o brilho pela porta de uma linda menina de verde. Entre caminhadas, passeios de trem e sentadas nos parques continuo a me apaixonar  a cada instante (obrigado mae pelo presente!).  

Quanto a Buenos Aires, eu entrego as cartas. Apesar de nao ser o maior dos fas das grandes cidades , essa aqui é simplesmente impressionante. Nao sei se até agora passei por algum lugar nao cheio de beleza. Entre casas coloniais, flores roxas, belas calçadas e lindos parques, a cidade vai mostrando seu encanto.

Buenos Aires – Argentina

Lucas Bezerra

Estradas assim, estradas assado

November 10, 2007 by quixotesemrumo

Um dia acordar disposto a caminhar por horas e quilômetros por la carretera a espera de uma boa carona, às vezes com êxito e às vezes sem. Outros dias as condições obrigam a viajar a bordo de um ônibus de luxo. Há ainda dias em que se tem a oportunidade de balaçar em um vagão sobre velhos trilhos. E claro, não é possível esquecer  jamais os dias em que o trajeto era realizado sobre duas rodas (esses sempre foram os melhores!). Existem ainda os dias em que a viagem é feita ao lado de um grande companheiro. Em outros tem-se a sorte de iniciar uma nova amizade. As viagens em silêncio também são boas. Servem para fazer uma batida com os ocorridos dos dias anteriores e depois uma boa assimilada. Assim têm sido os dias: carona, a pé, bicicleta, trem, com companheiro, com desconhecido ou sozinho, tudo em uma sequência rápida e mixta.

Após receber a notícia de minhas poucas horas legalmente na Argentina sigo de ônibus para Tucuman. Os ônibus aqui são “high-class” e rapidamente sinto falta dos velhos ônibus coloridos e apertados da America Central, onde se levam toda a “familia, cachorro, gato e galinha.” Que puedo hacer? Reclino o banco-cama e busco aproveitar os clássicos filmes de transportes a longa distância e os constantes serviços de bordo para entreter os clientes. Agora sim, com o cream cracker diregido, passo a admirar os quadros móveis que passam pela janela. O clima semi-árido faz lembrar bastante algumas da velhas estradas nordestinas. Enquanto que alguns trechos lembram as estradas Mossoró-Paraiba, outros lembram a boa sol poente Fortaleza-Taíba. A medida que a “ruta” me leva a Buenos Aires a altitude vai baixando e o clima mudando. Já não é mais possível ver aquela vegetação de herbaceas e o frio andino agora fica apenas nas recordações. Por outro lado o sol agora demora cada vez mais para dormir e às vezes até me sinto afrontado quando estou pronto para cerrar os olhos antes dele.

Bem, agora já estou abaixo do trópico e em breve estarei na minha localização mais sul já vivida. É engraçado pensar que estava tentando cruzar a fronteira Guatemala-México alguns dias atrás. Pensar no que passou e no que vai passar até meu retorno às terras cearenses próximas do equador. Pensar nos dias de alegria que passaram e nos dias que serviram para engrandecer. Pensar nos dias de fartura e nos de miséria. Pensar nos dias quando dormi sobre colchões e grossas mantas e nos dias que dormi sobre cachos de banana. Mas assim sempre será. Alguns dias serão assim e outros assado.

Tucuman, Argentina

Lucas Bezerra

Rumando ao sul

November 8, 2007 by quixotesemrumo

A descida de trem desde Oruro até Villazon, fronteira com Argentina, foi tão interessante quanto imaginado. Já nos primeiros quilômetros de trilho um belo lago onde flamingos, patos e outras aves se banhavam tranquilamente. A paisagem? Dominada por herbaceas e mais herbaceas, inclusive passando várias e várias horas sem uma árvore sequer. Amanheço com um cenário de mais herbaceas com alguns arbustos isolados e vários cactos. De imediato me transporto   aos vários campos vividos em Serra das Almas. De repente uma manada de llamas silvestres. Mais adiante um lindo casal de coelhos, também silvestres, brincam de pega-pega em uma louca corrida de amor.  Imagino que o balançar do trem induz a certos pensamentos que outros veículos não. Não sei. Fato é que me bate mais uma das loucas nostalgias de passado, presente e futuro. Me pergunto se não deveria passar mais tempo viajando. Me pergunto se não deveria passar menos tempo viajando. Enfim, me pergunto se não estou viajando. De qualquer forma acredito que até o presente momento todos os quilômetros de carretera serviram, no mínimo, para cambiar bastante a maneira de ver o mundo; de cheirar o mundo; de degustar o mundo e de sentir o mundo.

Depois de 17 horas no balanço dos trilhos chego ao destino. Caminho até a fronteira para saber que tenho 5 dias para sair da Argentina. Amanhã tento prolongar isso. A verdade é que já estou saturado dessas burocracias infundamentadas. Hoje durmo esperando o melhor amanhã. A Argentina? Bem, algumas conclusões só se tira com certas vivências. Por exemplo? Descobri porque Ernesto inicia sua viagem de moto. Aqui está duro de conseguir carona. Ontem caminhei umas boas horas até que alguém finalmente parou e disse sim. Fui até a cidade de Tilcara, localizada por entre picos andinos, onde  conheci uns bons argentinos artesanos. Hoje mais várias horas e quilômetros caminhados até que fui obrigado a ceder ao transporte público. Agora estou na cidade de Jujuy, cansado e sem pensamentos lógicos. Queria apenas me expressar um pouco. Assim penso em cada possível leitor e aos poucos vou abafando o cansaço que, como um assaltante, me pegou de surpresa. Um abraço a todos e até breve.

Jujuy, Argentina

Lucas Bezerra

Bolívia em 48 horas.

November 6, 2007 by quixotesemrumo

Sim, infelizmente minha estadia no que tem mostrado ser um país extremamente interessante vai ser resumida a poucas horas.

Após um breve, mas feliz, encontro com o louco viajante Rono, sigo para a fronteira em Desaguadero, com a Bolívia. O tempo passado com o Rono não poderia ter sido melhor. Horas de conversas entre duas mentes cambiadas pelos quilômetros de carretera. Caminhamos pela cidade de Cusco e em seguida vamos em busca de um transporte para a cidade de Puno, à beira do lago Titicaca. Damos uma bela volta nas margens do lago e em seguida cada um segue seu caminho. Eu, para a fronteria com a Bolívia para daí seguir para La PAz e Oruru. Ele, em direção à Copacabana (Bolívia). Despedidas e vou-me. Entro na Bolívia. Na saída do Peru ninguém quer carimbar minha “permissão de regresso”. Na entrada da Bolívia o mesmo. Enfim… Pego um transporte para La Paz. Ao longo de todo o caminho meu estômago e intestino decidem dar início a uma batalha cruel e sem vencedores.

A cidade de La Paz é, digamos, estranha. As casas geralmente não apresentam reboco. Margeando a cidade estão grandes picos nevados deixando bem claro sua localização no altiplano andino. Caminho de um terminal ao outro observando minuciosamente cada movimento das pessoas. Aproveitando cada segundo. A Bolívia, apesar de ser o país mais pobre da América do Sul, me surpreendeu por nao apresentar o mesmo aspecto de miséria observado em muitos lugares peruanos. Achei isso um tanto quanto intrigante, mas meu pouco tempo por aqui não me permitiria conclusões.

O trajeto de La Paz a Oruru é bem interessante. Herbaceas perfazem a totalidade da vegetação ao longo do caminho frio do altiplano. No final da tarde um dos mais belos e mais demorados pôres-do-sol que já pude vivenciar. Chego à cidade de Oruru às 9 da noite após o ônibus apresentar um bom prego de gasolina. Ironicamente, ficamos no prego por mais de uma hora ao lado de uma gasolineira. Acordo e vou passear pela cidade. Aqui não há supermercado. Leite em pó, Nescau, detergente, cadernos e tudo mais é vendido nas ruas e em feiras organizadas por vários lugares. Nas praças os gramados servem como uma boa cama para os que dispõem de alguns minutos para apreciar as belas árvores. Homens e mulheres com trajes típicos e conversando em seus respectivos idiomas. Por todo os lados é possível ver alguém com seu saquinho com folhas de coca e com mais uma boa quantia sendo mascada.

Sigo agora em trem até a fronteira com a Argentina, onde em breve devo encontrar uma tal Dulcinéia. Sigo adiante tendo consciência de que alguns lugares terão de ser revisitados para uma melhor avaliação.

Até breve meus amigos companheiros.

Oruru, Bolívia – Lucas Bezerra