O Rio de Janeiro continua lindo… Algumas cidades são belas pelo esforço do homen. O Rio de Janeiro dispensa tal ajuda. Sua beleza é vista de qualquer e em todos os pontos. Apesar do esforço nosso em derrubar matas, escavar túneis, demolir morros e levantar prédios, o Rio se sustenta. Sua geografia peculiar e única encanta quem chega. Esteja nas praias, na lagoa ou nos morros, não é preciso girar mais de 360 graus para se deparar com alguma distração visual no mínimo interessante. Posso apenas sonhar a sensação dos navegantes que aqui chegaram há mais de 500 anos, quando araras eram abundantes e havia pra lá de 20 lagoas…
Só agora, depois de vinte e poucos anos vividos, é que pude entender muito do que havia aprendido nos livros e escutado nas músicas. Entender porque saíram do Rio as canções que saíram. Entender porque se inspiraram no Rio aqueles que se inspiraram. E entender porque surgiram no Rio as idéias que surgiram.
O carioca foi mais um exemplo de que não se pode montar conceitos antecipadamente. Gente relaxada, tranquila e sem a tensão e frieza tão presentes abaixo da Bahia. O próprio linguagar “carioquês”, que em muitos momentos disse desgostar, soa diferente lá. Acho que quando via (ouvia) um carioca fora do Rio, tinha a tendência a achar que o sotaque estava sendo forçado e coisa tal… Grande besteira!! O mesmo modo de falar é sustentado durante os instantes de mais pura descontração. Ilustre constatação: “aqui todos falam carioca”.
Obviamente nem tudo é flor. Em qualquer cidade com mais de 2 milhões de habitantes (ou menos!) a pobreza e miséria são inevitáveis. O Rio, com seus pra lá de 9 milhões não seria diferente. As ruas são casa de muitos e diferente de outras cidades onde se vê pessoas isoladas cobertas com papelão ou jornal, lá famílias inteiras fazem das calçadas sua moradia. Nos morros a molecada joga bola descalço e com a trave desenhada no muro. A poucos metros, traficantes com suas pistolas e fuzis, observam os ares em busca de sinalizações, seja por pipas ou por fogos. Ao sinal da menor anormalidade os “clicks” são ouvidos e armas apontadas. Isso, contudo, é no morro. A sensação de andar pelas ruas “comuns”, acredite ou não, é bem menos hostil do que as andanças por uma Fortaleza ou Recife.
Bem, não posso concluir sem falar da Lapa, local onde “ninhei” por mais tempo. Lugar de bares e de uma boemia diversificada. Boemia destacada, boemia escondida; boemia em mesas, boemia em balcões; boemia de aparência e boemia de idéias. Lugar de fronteira com as ladeiras de Santa Tereza. Lugar perto dos pertos e perto dos longes. Enfim, lugar onde se sai inocentemente em uma segunda à noite e retorna às seis da manhã, após diálogos com celebres comuns, com a constatação de que a poesia não é para quem ler, mas para quem escreve.
Dedico esse post ao meu irmão por opção, Felipe Bottona, com quem passei algumas das experiências mais inesquecíveis dos meus vinte e poucos anos de vida. Obrigado pelo acolhimento e tudo mais.