Rumando ao sul

By quixotesemrumo

A descida de trem desde Oruro até Villazon, fronteira com Argentina, foi tão interessante quanto imaginado. Já nos primeiros quilômetros de trilho um belo lago onde flamingos, patos e outras aves se banhavam tranquilamente. A paisagem? Dominada por herbaceas e mais herbaceas, inclusive passando várias e várias horas sem uma árvore sequer. Amanheço com um cenário de mais herbaceas com alguns arbustos isolados e vários cactos. De imediato me transporto   aos vários campos vividos em Serra das Almas. De repente uma manada de llamas silvestres. Mais adiante um lindo casal de coelhos, também silvestres, brincam de pega-pega em uma louca corrida de amor.  Imagino que o balançar do trem induz a certos pensamentos que outros veículos não. Não sei. Fato é que me bate mais uma das loucas nostalgias de passado, presente e futuro. Me pergunto se não deveria passar mais tempo viajando. Me pergunto se não deveria passar menos tempo viajando. Enfim, me pergunto se não estou viajando. De qualquer forma acredito que até o presente momento todos os quilômetros de carretera serviram, no mínimo, para cambiar bastante a maneira de ver o mundo; de cheirar o mundo; de degustar o mundo e de sentir o mundo.

Depois de 17 horas no balanço dos trilhos chego ao destino. Caminho até a fronteira para saber que tenho 5 dias para sair da Argentina. Amanhã tento prolongar isso. A verdade é que já estou saturado dessas burocracias infundamentadas. Hoje durmo esperando o melhor amanhã. A Argentina? Bem, algumas conclusões só se tira com certas vivências. Por exemplo? Descobri porque Ernesto inicia sua viagem de moto. Aqui está duro de conseguir carona. Ontem caminhei umas boas horas até que alguém finalmente parou e disse sim. Fui até a cidade de Tilcara, localizada por entre picos andinos, onde  conheci uns bons argentinos artesanos. Hoje mais várias horas e quilômetros caminhados até que fui obrigado a ceder ao transporte público. Agora estou na cidade de Jujuy, cansado e sem pensamentos lógicos. Queria apenas me expressar um pouco. Assim penso em cada possível leitor e aos poucos vou abafando o cansaço que, como um assaltante, me pegou de surpresa. Um abraço a todos e até breve.

Jujuy, Argentina

Lucas Bezerra

6 Responses to “Rumando ao sul”

  1. felipe bottona Says:

    Após tantas despedidas seguidas todos os dias, de lugares, de pessoas, de deuses, de demonios, chegou, inesperadamente (e desesperadamente em alguns minutos) a hora da maior despedida dessa viagem. A da estrada! A do companheiro. A um quase casamento de mentes (nao de corpos viu galera!), que tudo decidia, para todos os lugares ia, uma união lendária para mim, minha com esse cara aí. Agora estou aqui na Copacabana 24 horas, radicalmente diferente da pacata Copacabana da Bolívia, ao lado do lago Titicaca, que tive o prazer de conhecer a alguns anos, e quem diria, o amigo Rono esteve por lá a alguns dias. No meio da selva de pedra, onde o mundo só pára ao ler os relatos dessa viagem, que ganha muita mais vida e significado quando se observa ela do lado de fora, do lar seguro, do conforto de nossas casas. Engasgado com lágrimas de saudade e esperança de um dia voltar a carretera assim, legitimamente, lendo e me emocionando com o vivido e o não vivido, imaginando estar lá, onde já não mais estou. Voltar à realidade, na maioria das vezes surreal, sentir as dores necessárias para seguir nesse mundo doído chamado de civilização, de sociedade. Agora cicatrizado pelo asfalto de alguns meses e machucado pela rotina de alguns dias desejo ao eterno companheiro e irmão de qualquer hora um bom começo de retorno pelo sul, nosso país nos espera de pernas abertas, opa! pra gente portas (fosse gringo eram as pernas,hehe)…
    um grande abraço,

  2. quixotesemrumo Says:

    sem palavras…

  3. Thiago Amorim Says:

    Egua!Bateu foi o ciume! Mas me alegro em saber que uma amizade massa nasceu dessa convivência. Felipe, cara, tu se garante na palavra.

    Lucas, y para ti una luna de miel muy tangera con tu Dorotea!

  4. Fernanda Freire Says:

    snif !!!

  5. Fernanda Freire Says:

    Maravilhoso texto, maravilhosa sensação de grandeza e prazer!!
    Cara, muita boa energia!!

    Fê.

  6. Thiago Amorim Says:

    Êta!è Dulcinéia né?Santa ignorância. Faz mal não, até rimou!!!

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