Estradas assim, estradas assado

By quixotesemrumo

Um dia acordar disposto a caminhar por horas e quilômetros por la carretera a espera de uma boa carona, às vezes com êxito e às vezes sem. Outros dias as condições obrigam a viajar a bordo de um ônibus de luxo. Há ainda dias em que se tem a oportunidade de balaçar em um vagão sobre velhos trilhos. E claro, não é possível esquecer  jamais os dias em que o trajeto era realizado sobre duas rodas (esses sempre foram os melhores!). Existem ainda os dias em que a viagem é feita ao lado de um grande companheiro. Em outros tem-se a sorte de iniciar uma nova amizade. As viagens em silêncio também são boas. Servem para fazer uma batida com os ocorridos dos dias anteriores e depois uma boa assimilada. Assim têm sido os dias: carona, a pé, bicicleta, trem, com companheiro, com desconhecido ou sozinho, tudo em uma sequência rápida e mixta.

Após receber a notícia de minhas poucas horas legalmente na Argentina sigo de ônibus para Tucuman. Os ônibus aqui são “high-class” e rapidamente sinto falta dos velhos ônibus coloridos e apertados da America Central, onde se levam toda a “familia, cachorro, gato e galinha.” Que puedo hacer? Reclino o banco-cama e busco aproveitar os clássicos filmes de transportes a longa distância e os constantes serviços de bordo para entreter os clientes. Agora sim, com o cream cracker diregido, passo a admirar os quadros móveis que passam pela janela. O clima semi-árido faz lembrar bastante algumas da velhas estradas nordestinas. Enquanto que alguns trechos lembram as estradas Mossoró-Paraiba, outros lembram a boa sol poente Fortaleza-Taíba. A medida que a “ruta” me leva a Buenos Aires a altitude vai baixando e o clima mudando. Já não é mais possível ver aquela vegetação de herbaceas e o frio andino agora fica apenas nas recordações. Por outro lado o sol agora demora cada vez mais para dormir e às vezes até me sinto afrontado quando estou pronto para cerrar os olhos antes dele.

Bem, agora já estou abaixo do trópico e em breve estarei na minha localização mais sul já vivida. É engraçado pensar que estava tentando cruzar a fronteira Guatemala-México alguns dias atrás. Pensar no que passou e no que vai passar até meu retorno às terras cearenses próximas do equador. Pensar nos dias de alegria que passaram e nos dias que serviram para engrandecer. Pensar nos dias de fartura e nos de miséria. Pensar nos dias quando dormi sobre colchões e grossas mantas e nos dias que dormi sobre cachos de banana. Mas assim sempre será. Alguns dias serão assim e outros assado.

Tucuman, Argentina

Lucas Bezerra

3 Responses to “Estradas assim, estradas assado”

  1. Berna Says:

    Gracias por el correo privado… É Verdade, como diz você e como dizia o Drummond (?), a vida é assim mesmo: um dia chora, outro ri… Ou seria um dia chove e outro faz sol? E assim o mundo vai revelando o seu propósito e nós vamos entendendo, ou não… Degustando, ou não. De todo jeito, “navegar é preciso”… E eu fico a imaginar em que cavalheiro/homem/poeta você se transformou neste quase um ano e meio de separação… Estou curiosa para reencontrá-lo e também com muita saudade… Hoje você se vê através da inconstância dos novos lugares, paisagens e companhias… Em Chicago eu me lembrava de você constante, jardineiro fiel, acordando antes do sol para regar e cuidar da sua horta. Abraço forte e keep it up!

  2. Thiago Amorim Says:

    Lucas, eu ainda não disse que você escreve muito bem. Pois bem, você escreve muito bem. Porque é com a alma. Durante estes meses me diverti, me emocionei, me impressionei, me inspirei. Espero ver estas palavras publicadas um dia. Quem sabe né?!

  3. Tereza Says:

    Don Quijote, dale un abrazo de romper los uesos en tu Dulcinea y, por favor, dile que yo la amo.

    Que le pasen lindo.

    Abrazos de tu cuñada,

    Tereza.

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